Teste online de autismo ou TDAH: por que tanta gente procura
É tarde da noite e você está rolando o feed. Aparece um vídeo descrevendo exatamente algo que você vive. Depois outro. Você clica em um link, responde a um questionário de poucos minutos e o resultado diz que você tem "alta probabilidade" de autismo ou TDAH.
A sensação pode ser de alívio, de susto ou de confusão. Muitas pessoas chegam à primeira consulta exatamente assim. E a pergunta é legítima: esse teste online funciona?
A resposta curta é: ele pode ajudar a levantar uma dúvida, mas não faz diagnóstico. Vamos entender por quê.
Triagem não é diagnóstico
A maioria dos "testes" encontrados na internet são, na melhor das hipóteses, questionários de triagem. Eles foram pensados para sinalizar quem talvez se beneficie de uma investigação mais aprofundada, e não para concluir nada.
Muitos questionários que circulam online também não têm origem clara, não foram estudados de forma adequada ou foram adaptados sem cuidado. Mesmo quando o questionário é bom, o resultado depende de como a pessoa interpreta cada pergunta naquele momento.
Por que um questionário sozinho não basta
- Muitas características se sobrepõem. Desatenção, cansaço social, inquietação e sensibilidade a estímulos podem aparecer no TDAH, no autismo, na ansiedade, na depressão, em alterações do sono e em períodos de sobrecarga.
- O diagnóstico exige história. Pelo DSM-5-TR, o TDAH envolve sintomas antes dos 12 anos, em dois ou mais contextos e com prejuízo. O TEA envolve características presentes desde o início do desenvolvimento. Um questionário de minutos não reconstrói uma história de vida.
- Falta o olhar clínico. A observação, a entrevista e a integração de diferentes informações são parte essencial do processo.
O que diz a pesquisa sobre conteúdo de TDAH nas redes sociais
As redes sociais ajudaram muita gente a reconhecer experiências que nunca tinham nome. Mas a qualidade da informação varia bastante.
Um estudo de Yeung, Ng e Abi-Jaoude, publicado em 2022 no The Canadian Journal of Psychiatry, analisou os 100 vídeos mais populares com a hashtag #adhd no TikTok. Os resultados:
- 52% tinham informação enganosa;
- 21% eram cientificamente corretos;
- 27% eram relatos pessoais;
- apenas 11% eram de profissionais de saúde;
- cada vídeo teve, em média, quase 3 milhões de visualizações.
Isso não significa que relatos pessoais não tenham valor. Eles podem acolher e fazer a pessoa se sentir menos sozinha. Mas mostra por que a identificação com um vídeo não deve ser confundida com uma conclusão.
Vídeos curtos tendem a mostrar comportamentos isolados, como esquecer as chaves, mudar de assunto ou não gostar de barulho. Experiências assim são muito comuns e, sozinhas, dizem pouco. O que um diagnóstico considera é o conjunto: desde quando as dificuldades existem, em quantas áreas da vida aparecem e o quanto afetam o dia a dia. O estudo avaliou conteúdo sobre TDAH, mas o mesmo cuidado vale para vídeos sobre autismo.
Como usar a informação das redes de forma saudável
Você não precisa parar de consumir esse tipo de conteúdo. Algumas atitudes ajudam a aproveitar o que ele tem de bom:
- Observe quem está falando. É um relato pessoal, um conteúdo educativo de profissional identificado ou uma página que vende algo?
- Desconfie de listas que "confirmam" diagnósticos. Comportamentos isolados raramente dizem muito sozinhos.
- Anote o que faz sentido para você. Situações concretas, desde quando acontecem e como afetam a sua vida. Essas anotações são úteis na primeira consulta.
- Cuide do impacto emocional. Se o conteúdo está gerando angústia ou rótulos que pesam, faça pausas.
- Use a dúvida como ponto de partida. A identificação é um motivo legítimo para procurar ajuda, e não um diagnóstico.
Também vale cuidado com o caminho contrário: um resultado "baixo" em um questionário online não significa que não há nada a investigar. Se as dificuldades afetam o seu dia a dia, isso por si só já é motivo para conversar com uma profissional.
Teste psicológico de verdade: o que acontece na avaliação
No Brasil, os testes psicológicos são de uso restrito de psicólogas e psicólogos. O Conselho Federal de Psicologia mantém o SATEPSI, sistema que lista os testes com parecer favorável para uso profissional. A Resolução CFP nº 31/2022 estabelece as diretrizes da avaliação psicológica.
Por isso, um teste psicológico de verdade não é algo que se responde sozinho na internet. Ele faz parte de um processo conduzido por profissional, que escolhe os instrumentos adequados para cada caso e interpreta os resultados junto com a entrevista, a observação e a história de vida.
A avaliação neuropsicológica online segue esse caminho, com as regras da Resolução CFP nº 11/2018 para o atendimento por meios digitais. Ela geralmente acontece em 6 a 10 sessões de cerca de 50 minutos: primeira consulta, sessões de avaliação e, ao final, laudo e devolutiva. Para quem investiga autismo, há mais detalhes em avaliação de autismo em adultos; para TDAH, em avaliação de TDAH em adultos.
O próximo passo, com calma
Se um teste online ou um vídeo despertou uma dúvida, isso já é informação valiosa. O próximo passo não precisa ser urgente, mas pode ser uma conversa com uma profissional.
Na primeira consulta, você pode contar o que leu, o que viu e por que se identificou. Isso não atrapalha a avaliação, pelo contrário: ajuda a entender o que trouxe você até ali. Se quiser se organizar antes, veja como se preparar para a avaliação neuropsicológica.
A Monica Sarah Salomon é psicóloga (CRP 12/13557), pós-graduada em Neuropsicologia e em TEA, e atende adultos e idosos 100% online, em português, de qualquer cidade do Brasil ou do exterior. Se fez sentido para você, veja como funciona o agendamento.
