Diagnóstico de autismo depois dos 40: por que só agora?
Talvez tenha começado com um sobrinho, um neto ou um filho que recebeu o diagnóstico. Talvez com um vídeo, uma reportagem ou uma conversa com um amigo. De repente, você se pegou pensando: "Isso descreve a minha vida inteira".
Essa experiência é mais comum do que parece. Quem tem hoje 40, 50 ou 60 anos cresceu em uma época em que o autismo era pouco conhecido e geralmente associado a apresentações com maior necessidade de suporte. Muitas pessoas no espectro simplesmente não foram vistas.
O DSM-5-TR reconhece que as características do Transtorno do Espectro Autista estão presentes desde o início do desenvolvimento, mas podem não aparecer por completo até que as demandas sociais ultrapassem as capacidades da pessoa, ou podem ficar encobertas por estratégias aprendidas. Décadas de adaptação deixam essas estratégias muito refinadas.
Muitas dessas pessoas construíram carreiras, criaram filhos e cuidaram de outras pessoas, sempre com uma sensação de esforço extra que ninguém via. Não é raro que a pergunta sobre o espectro surja justamente quando a vida desacelera e sobra tempo para olhar para trás.
O que os dados mostram sobre autismo em adultos mais velhos
Pela primeira vez, o Censo 2022 do IBGE contou pessoas com diagnóstico de autismo no Brasil: 2,4 milhões, ou 1,2% da população. O maior percentual está entre crianças de 5 a 9 anos (2,6%), enquanto entre jovens de 15 a 19 anos ele já cai para 1,3%.
Esses números refletem diagnósticos já feitos. A interpretação mais cuidadosa é que gerações mais velhas tiveram menos acesso à identificação, e não que existam menos pessoas autistas entre elas. Veja mais em o que o Censo do IBGE revela sobre o autismo no Brasil.
Um estudo da University College London (UCL), publicado em 2023 na revista The Lancet Regional Health – Europe por O'Nions e colegas, reforça essa leitura. Os pesquisadores estimaram que, na Inglaterra, entre 150 mil e 500 mil autistas de 20 a 49 anos e entre 250 mil e 600 mil autistas acima de 50 anos podem não ter diagnóstico.
Como o espectro pode aparecer depois dos 40
Os exemplos abaixo são ilustrativos e não servem para autodiagnóstico. Eles mostram relatos frequentes de quem procura investigar o espectro mais tarde:
- uma vida inteira de sensação de não pertencer, mesmo com família, trabalho e amigos;
- carreira construída em áreas que permitem foco e previsibilidade;
- cansaço social crescente, como se a "bateria" para se adaptar tivesse diminuído;
- esgotamento em transições como a saída dos filhos de casa, a aposentadoria ou a viuvez;
- sensibilidade a sons, luzes ou multidões que sempre existiu, mas agora pesa mais;
- histórico de ansiedade ou depressão tratadas sem que o quadro completo tivesse sido olhado.
Para quem se reconhece nessa descrição, vale buscar uma conversa profissional antes de tirar conclusões.
Como é a avaliação de autismo depois dos 50 e dos 60
A avaliação segue os mesmos princípios de qualquer avaliação de TEA em adultos: entrevista detalhada, observação clínica, instrumentos específicos e investigação de atenção, memória, funções executivas e aspectos emocionais. Mas algumas particularidades merecem cuidado:
- Informações da infância: muitas vezes os pais já faleceram ou não lembram detalhes. Isso não impede a avaliação. Relatos da própria pessoa, de irmãos, documentos antigos, boletins e fotos podem ajudar.
- Décadas de adaptação: estratégias muito refinadas podem esconder características. A avaliação procura entender também o custo desse esforço.
- Diagnóstico diferencial: nessa fase, é importante considerar outras condições, como transtornos do humor, ansiedade e, quando houver queixas de mudança recente na memória ou na cognição, transtornos neurocognitivos. Uma característica que existe desde sempre é diferente de uma mudança que começou há pouco tempo.
A avaliação é conduzida com respeito ao ritmo de cada pessoa, sem infantilizar e sem pressa. Para adultos mais velhos, isso inclui combinar pausas quando necessário, garantir conforto com a tecnologia e explicar cada etapa com clareza.
Se a dúvida principal for sobre memória, leia também avaliação neuropsicológica em idosos.
Vale a pena investigar o autismo nessa fase da vida?
Essa é uma pergunta muito pessoal, e não existe resposta certa. Algumas pessoas preferem não investigar. Outras sentem que entender a própria história faz diferença, mesmo depois de tantos anos.
Entre os motivos que levam adultos mais velhos à avaliação estão:
- compreender experiências do passado com mais gentileza;
- reduzir a culpa por dificuldades que pareciam falhas pessoais;
- fazer ajustes na rotina, no trabalho ou na aposentadoria;
- melhorar a comunicação com a família;
- direcionar melhor a psicoterapia e outros cuidados.
A avaliação não tem resultado definido de antemão. Ela pode indicar TEA, outra condição ou uma combinação delas, e em qualquer caso traz informação para os próximos passos.
Também é comum que a decisão de investigar envolva a família. Às vezes são os filhos adultos que sugerem a avaliação, às vezes é o cônjuge que percebe semelhanças com um neto recém-diagnosticado. Em qualquer caso, a decisão é da própria pessoa, e a avaliação só faz sentido quando ela deseja entender a própria história. Depois, se o diagnóstico vier, vale ler recebi o diagnóstico de autismo na vida adulta, e agora?
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