Autismo e TDAH juntos: quando nada parece se encaixar
Você precisa de rotina e previsibilidade para se sentir bem, mas tem enorme dificuldade em manter qualquer rotina. Mergulha por horas em um assunto que ama, mas não consegue terminar tarefas simples. Se cansa com interações sociais e, ao mesmo tempo, fala sem parar quando o tema interessa.
Muitos adultos descrevem essa sensação de "contradição" interna. Às vezes, ela ganha sentido quando se considera que autismo e TDAH podem acontecer juntos.
Essa possibilidade ainda gera dúvidas, até porque, por muito tempo, os manuais diagnósticos não a aceitavam. Neste texto, você vai entender o que mudou, o que significa o termo AuDHD, por que pode ser difícil identificar as duas condições e como uma avaliação cuidadosa ajuda a separar o que é de cada uma.
Autismo e TDAH juntos é possível? O que diz o DSM-5-TR
Sim. Desde o DSM-5, publicado em 2013, os critérios diagnósticos permitem que uma pessoa receba os diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e de TDAH ao mesmo tempo. O DSM-5-TR, de 2022, mantém essa possibilidade.
Antes disso, o manual não permitia o diagnóstico de TDAH quando havia diagnóstico de autismo. Essa mudança reconheceu algo que já se observava na prática clínica: as duas condições podem coexistir, e cada uma merece ser compreendida.
Relembrando, de forma resumida, o que o DSM-5-TR descreve:
- TEA: dificuldades persistentes na comunicação e na interação social, junto com padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. As características estão presentes desde o início do desenvolvimento, mas podem só ficar evidentes quando as demandas sociais ultrapassam as capacidades, ou ser mascaradas por estratégias aprendidas. O TEA é descrito em níveis de suporte 1, 2 e 3.
- TDAH: sintomas de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade presentes antes dos 12 anos, em dois ou mais contextos, com prejuízo no funcionamento.
A CID-11, da Organização Mundial da Saúde, também classifica as duas condições, com os códigos 6A02 (TEA) e 6A05 (TDAH).
O que significa AuDHD
AuDHD é um termo que surgiu na comunidade e nas redes sociais, unindo as palavras em inglês autism e ADHD. Ele é usado por pessoas que têm os dois diagnósticos para descrever a própria experiência.
Usar o termo no dia a dia não é um problema. O cuidado está em não tratá-lo como conclusão. A identificação com relatos online é um ponto de partida, e a confirmação vem da avaliação profissional.
Por que pode ser difícil identificar as duas condições
Quando autismo e TDAH estão presentes juntos, as características de uma podem disfarçar ou se misturar com as da outra. Alguns exemplos ilustrativos:
- a necessidade de previsibilidade do autismo pode coexistir com a dificuldade de organização do TDAH, e a pessoa vive em tensão entre as duas;
- a dificuldade em acompanhar conversas pode vir da distração, de diferenças na comunicação social ou de ambas;
- os interesses intensos podem ser lidos apenas como "hiperfoco", sem que o restante do quadro seja olhado. Leia mais em hiperfoco: o que é, no TDAH e no autismo;
- o mascaramento, comum em adultos autistas, pode esconder características e atrasar a investigação.
Também é comum que a pessoa receba um dos diagnósticos primeiro e, anos depois, perceba que ele não explica tudo. Por isso, um diagnóstico anterior não impede uma nova investigação.
Situações que justificam buscar uma avaliação
Não é uma lista para autodiagnóstico, e reconhecer-se nela não significa ter as duas condições. São situações que costumam levar adultos a investigar:
- já ter um diagnóstico de TDAH, mas sentir que as dificuldades sociais ou sensoriais não foram explicadas;
- já ter um diagnóstico de TEA, mas conviver com desatenção e desorganização que vêm desde a infância;
- sentir-se dividido entre a necessidade de rotina e a dificuldade de sustentá-la;
- exaustão frequente por tentar se adaptar ao trabalho, aos estudos e às relações.
Se o cansaço é intenso e prolongado, também pode ser útil ler sobre burnout autista.
Como a avaliação neuropsicológica investiga TEA e TDAH
A avaliação de adultos com suspeita das duas condições precisa ser cuidadosa e abrangente. Ela costuma acontecer em 6 a 10 sessões de cerca de 50 minutos e inclui:
- Anamnese detalhada: história do desenvolvimento, infância, estudos, trabalho, relações e queixas atuais. Quando possível, informações de familiares ajudam a reconstruir a infância.
- Sessões de avaliação: entrevistas, observação clínica e instrumentos específicos para investigar atenção, funções executivas, memória, aspectos sociais, emocionais e comportamentais.
- Laudo e devolutiva: os dados são integrados no laudo neuropsicológico e explicados em uma sessão devolutiva.
O centro do processo é o diagnóstico diferencial: entender se as características se explicam pelo TEA, pelo TDAH, pelas duas condições juntas ou por outras questões, como ansiedade e transtornos do humor. Para saber mais sobre a investigação do espectro, veja avaliação de autismo em adultos.
Por que vale a pena entender o quadro completo
Compreender que as duas condições estão presentes pode trazer clareza sobre experiências que pareciam contraditórias. Também ajuda a escolher estratégias que respeitem os dois lados: estruturas que tragam previsibilidade, mas com flexibilidade suficiente para a forma como a sua atenção funciona.
O resultado da avaliação também pode ser outro. Às vezes, apenas uma das condições se confirma, ou as dificuldades se explicam melhor por ansiedade, humor ou sobrecarga. Qualquer que seja a conclusão, o objetivo é o mesmo: entender o seu funcionamento para orientar o cuidado, e não encaixar você em um rótulo.
Depois disso, o acompanhamento pode incluir psicoterapia, orientação para adaptações no trabalho e nos estudos e, quando indicado, acompanhamento médico.
A Monica Sarah Salomon é psicóloga (CRP 12/13557), pós-graduada em Neuropsicologia e em Transtorno do Espectro Autista, e atende adultos e idosos 100% online, em português, no Brasil e no exterior. Se fez sentido para você, veja como funciona o agendamento.
